quinta-feira, fevereiro 15, 2024

Sentido da poesia

 Alguém me disse que a poesia precisa ter sentido, dizer coisas conexas, senão, não é poesia.

O que é ter sentido?  Que sentido é esse que se tem, mas que contradiz o sentido do que não se possui? 

Que sentido é esse dado de forma tão simples, lógica e trivial? Que lógica é essa que decodifica a poesia ao inteligível e racional?

Será que esse alguém esqueceu ou não aprendeu a "pensar" com os sentimentos, a perceber com o coração?

Em quais labirintos nos escondemos de nós mesmos, do que sentimos, do outro que negamos?

Quem está autorizado a desautorizar? Quem tem o direito de regular a forma como expressamos o que queremos, sentimos, pensamos, percebemos?

Dizer o indizível, denunciar o descaso, escrever o oculto, evocar línguas e palavras, expressar dores e belezas. 

Qual o sentido da poesia? 

sexta-feira, maio 07, 2021

Da lei

Desde que o céu desabou, nunca mais se viu a tranquilidade. 

O que era comum, se tornou distante, e a liberdade, relativa.

Se éramos realmente livres, não o sabíamos, mas a simples crença de que sim,

nos permitia ir e vir e acreditar na grande e infinita busca.

Suspensão das aulas, do trabalho, do salário, do tempo e da vida,

supressão dos sonhos, das esperanças, dos amanhãs e do encontrar saídas.

O tempo e a vida parou, mas os juros, a inflação, os impostos, a doença e a ferrugem

continuam a corroer o sangue e o suor. O horizonte se pôs, junto com o novo sol,

que não nasceu. A força do hábito se desfez, e a causalidade se refez, implacável, 

comprovando a lei da contradição, da infindável luta de classes,

onde sempre há opressores e oprimidos, 

os que se importam e os que desprezam vidas.

A casa

 É preciso construir nossa própria morada. 

Um lugar onde possamos nos proteger das intempéries,

da maledicência, do tumulto, dos juízos desalmados, 

do descaso e da frieza que, há muito, congela e paralisa os corações humanos.

Morada erigida sobre o autoconhecimento, decorada com autoficções.

Lugar de permissões, liberdade, espaço para ensaios de si e da vida.

Onde o medo não alcança, e a insegurança é apenas a abertura para o porvir.

Em seu centro uma lareira, clareira do amor, chama que aquece 

e que chama para o agora, o presente, o instante, 

momento em que as obrigações cessam, 

e os deveres silenciam. Serena a alma,

e se abre para a vida.


quinta-feira, maio 06, 2021

Cética subjetivista

 Por alguns instantes suspendo os juízos

junto minhas mãos e agradeço

o teto, o som, o canto.

Estes, não são meros fenômenos

ou fantasias.

São capricho, acalanto,

refúgio da própria alma

em sua leveza suspensiva

e aberta.



Ponto

 Não pensar nas pendências, e deixar a energia fluir.

Recuperar a leveza densa de  um dia chuvoso  

tocando as teclas sonoras da alma sofrida.

Um sorriso e um aceno

às folhas em branco

Ponto.

sexta-feira, abril 30, 2021

Do vazio de hoje

 Deste tempo que parou, o que ainda se arrasta do tão sonhado e triunfal encontro com a poesia? Algumas palavras roubadas, gestos alheios, fagulhas do céu calado, este que se fecha todas as noites, por mais brilhantes que sejam as estrelas... Emudecida e despedaçada, ainda sigo catando versos.

Eles são hostis, áridos, pouco expressam em sua quase morte... mas isto ainda é uma pouca vida, palpitações repentinas que de um dia vazio agitam o coração cansado de estar deitado. A casa, a cama, o quadro, a tela, é isso o que de resto tenho hoje, e nada mais para molhar os olhos.

É preciso seguir. Encarar. Quero mesmo viver. E também quero plantar e colher o Sentido. Ele há, eu o conheço. Já me deparei com ele em escombros, vielas, esquinas e olhares profundos. Também em palavras que se encarnaram, nas veias, nas lágrimas, nos dedos trêmulos de um coração aflito.

E não me importo com o que pensam, como julgam, exaltam ou condenam... o caminho sempre foi e será solitário, e não há pódios que eu queira. Sigo na insignificância da minha existência, dos meus dias e pensamentos. 

sexta-feira, outubro 19, 2018

Descaminhos

Quero ir por caminhos que desconheço
Sem tantos planos, projetos ou promessas
Pegar as estradas das estrelas
As estadas nas incertezas
Os estalos do indefeso
Os estrondos do inconfesso
Quero ir, andar e ir, caminhar
Para o além do cálculo
Do que se espera da vida
Do algoritmo que controla
quem vai e quem fica
Seguir em frente sem o medo
Do passo para o desconhecido
Quero a liberdade da autodeterminação
A verdade da imaginação
Seguir as veredas da carne
Jorrando vida
E da vida o inominável
Instante da partida

terça-feira, agosto 21, 2018

Doação do dado

Entre o passado e o futuro nada está dado
Apenas o presente, insistente, se põe como abertura do possível.
Um passo sem direção por entre a névoa do destino
Desconhecido que é o porvir e o por ir.
Tecendo o agora com os fios da indeterminação
alcançados com as mãos da vontade de criação.
Nada dado entre o além e o aquém.
Nada posto a partir das expectativas,
dos projetos corrompidos pelas ideologias dominates
E quem diria que haveria libertação, possibilidade,
capacidade de superação?
Nada dado, apenas dor, doa a quem doer
doação.

quinta-feira, janeiro 04, 2018

Ensaio da vez

Sonhei viver num sempre ensaio, a tocar instrumentos com os amigos e escrever frases e rascunhos sem fim. Era dia, ou era noite, não importava, mas a qualquer instante surgiam novas melodias, novas frases e poemas que captavam o agora e o transformava em bolhas de ar, em gotas frescas de orvalho e ainda em perfumadas pétalas da mais vibrante cor. Era ensaio cada ação, sem começo, nem fim, nem duração, era apenas um sempre ensaio, que nos presenteava com a abertura do horizonte e de possibilidades sempre novas, ou velhas (realmente não importava), de recomeçar, de justapor, de refazer, de acrescentar e não precisar justificar. Era ensaio nosso de cada dia, como uma sempre música que nunca acaba, mas que se renova com a mudança do vento, com a temperatura, e ainda com o temperamento. Era o ensaio da vez que se desabrochava, sem plano prévio, mas na direção da intuição latente. E os pássaros das ideias voavam, sem gaiolas, sem precisar voltar, apenas pousar onde e como quisessem. Era sempre tempo de nascimento, nascença e renascença, tempo de vir a ser sem hora marcada, tempo de morrer como a fruta cai do pé. Era ensaio da criação que jorra do ventre, sem regras, métricas ou normas técnicas. Apenas ensaio da ação, da criação, da comoção do pensamento. 





terça-feira, janeiro 02, 2018

Super lua

Quero esta lua cheia, com toda sua intensidade profunda e obscura
caminhar pelas ruas sem medo da sombra,
atravessar os bosques, os becos, as bocadas,
sentindo a brisa noturna que refresca a minha alma
tão antiga e jovem como o tempo.

Quero ser transportada por esta super lua
para o todo sem lugar, pelo mistério do desdobramento,
para a abertura do terceiro olho
que num sobrevoo de um instante
percebe cada detalhe do caos circundante.

Quero mergulhar na densidade deste luar
que consigo enovela todos os segredos do arrependimento e do não vivido
vagar em silêncio e solitariamente
descobrindo o meu lado oculto e na espreita do próximo passo
saber-me indecifrável e inteira como esta lua cheia.

sábado, dezembro 30, 2017

Do fim-dar

Há uma delicada e singela aspereza no correr desta tarde, e eu quero vivê-la em toda sua sofreguidão que se estende pra dentro de mim... Não quero mais, nem menos, quero apenas este transcorrer que me enleva e me acende pro inaudito da natureza. Quero apenas me dissolver na branca e carregada nuvem que sobrevoa a minha casa, e me deixar ser levada pra dentro de meus sentimentos pensados e desembrulhados pro mundo... Vou me sentindo ser no tempo e no espaço fugidio, sem querer agarrá-lo ou possuí-lo. Apenas sendo o canto de um pássaro, uma folha que cai, ou o bater das asas de uma borboleta. Não sofro por tudo que se esvai, nem tenho condescendência pela morte que abate. Calo sobre o nunca mais e esqueço a dor e a beleza de tudo que já foi um dia. 

Do instante

Captar o instante. Eis o maior desejo de todo ensaísta e amante. Captar e fruir o instante, com todos os detalhes insignificantes e tão simbólicos como a própria vida. Pintar o instante com todas as misturas de tintas, todas aquelas que forem necessárias pra exprimir aquilo que é no momento que está sendo. Dedos como pincéis e cores como corcéis livres a escrever o destino fortuito e incerto. A paixão pelo instante pintado com fidelidade, instante pintando como instante, um duplo do mesmo que passa de uma coisa a outra sem diferença ontológica, apenas com diferença estética. Criação de diferença pela percepção da diferença. Pintar o instante fugidio sem medo das metades subjetivadas, sem vergonha de não saber com exatidão aquilo que escapa. Rasgar a folha em branco com o que brota do agora: dor, destino, desistência. Cravar as unhas no presente pra fazer escorrer o sangue que revela a vida, a pulsação, aquilo que ainda arde no fértil ventre da escrita.

Aforismo da serenidade pretensiosa

Sim, todos ultrapassaram e venceram a corrida... Mas quem disse que a corrida era o que importava? Onde se chega, e pra onde se vai? O que se ganha, afinal? Há medo em se descobrir ser o que se é, eu sinto. E por isso se veste mantos e máscaras. E por isso se trai e condena. Há medo em ser o que se é... A corrida não é pra vencedores, mas pra medrosos e desesperados. Corrida pra não perder aquilo que está perdido já desde a largada. E nem ao menos se sabe pra onde vai e no que vai dar. Mas meus passos são de caminhada, sem pressa, de andarilha solitária. O que quero não está na chegada, está na possibilidade invisível de cada dia, de uma nova descoberta, de um sentir firme e efêmero que só se conquista com serenidade e entrega. O que quero não é uma meta, uma coisa ou um prêmio. É inefável, transcendental, inexplicável. Mas pode ser sentido com a alma despida, com o coração frágil e nu lançado ao vento.

sábado, dezembro 23, 2017

Des pedaços

Mais alguns cacos
Pedaços arrancados
Nem sempre (ou nunca?)
A mesma jamais
Se vai e acaba
Finda a tempestade?
Não espero a trovoada
Levanto e aceno
Sigo andando...
Não sei se pra frente
Ou ainda pra trás
Dos pedaços me desfaço
O que fica
Nunca eu mesma
Nem eu, nem a mesma
Apenas a estrada
A velha estrada
Rumo ao oeste
Ao encontro do depor do sol
Onde as sombras desaparecem
E nada é mais isso ou aquilo
É só mais um
Mais um dia
Mais um caco
Mais um pedaço
Do qual me desfaço
Lembranças do jamais.

quarta-feira, dezembro 13, 2017

Antiontem

Maravilhamento, espanto, perplexidade, atordoamento... Percepção de que as histórias que nos contaram não dão conta, que o que dizem ser natureza, mundo, humano, homem, mulher, animal, nos levam a erros grosseiros: insuficiências dogmáticas, físicas problemáticas, religiões parasitárias, generalizações apressadas: a filosofia nos permite ter calma diante das ânsias destruidoras, prestar atenção aos detalhes e confeccionar nossas cosmovisões com fios poéticos, sutis, intuitivos, que em muito ultrapassam as definições instituídas e cravadas no peito do mundo, numa singela e persistente tentativa de salvá-lo, de salvar-nos, da declaração de morte sentenciada pelas ontologias falidas. É abrir nossos poros ao que ainda pulsa desconhecidamente em um universo infinito.

sexta-feira, dezembro 01, 2017

Aforismo 366

Veio com o peito aberto, exposto, jorrando seiva fecunda. Abertura tamanha que nela cabia o mundo, o céu e as estrelas, mais o infinito e todo o amor impossível. O que isso dizia? Que não havia espaço - e nem tempo - para o medo. Que o medo, monstro cruel e covarde, inimigo do instante, devorava os seus filhos hesitantes, e num único passo contido, perdia-se o direito à eternidade. Veio com o peito escancarado, para ensinar que quando se abre o coração o universo se expande e o buraco negro da solidão se vira ao avesso, espalhando novas sementes de amor e esperança, que vão gerar vida aonde ainda houver fertilidade: o buraco negro vira placenta de incontáveis mundos que se precipitam no porvir - sem medo! Ainda dizia mais: que as feridas cardíacas são crias do fechamento do peito, e que a cura está na abertura, no escancaramento das dores, do amor, do desejo, livre do controle da matéria morta, do cálculo da bolsa de valores e do metro quadrado dos muros e das portas.

Ensaio I

Decidi falar como as palavras me ocorrem: sou de inspiração lispectoriana. Escrever o que me advém, não para o proveito de outrem, ou para a minha edificação, menos ainda para vossa análise; decidi falar apenas por deleite e volúpia, porque me dá prazer escrever juntando palavras rolando ao vento. Sou também de inspiração montaigneana (não posso negar). Esse prazer de costurar sons e símbolos, tacando o foda-se para toda regra e ordem eclesiástica, é algo como um longo e reconfortante suspiro, que abre meu peito e revigora cada molécula que em mim vibra. Não que eu creia em mim e naquilo que digo, mas apenas porque falar ou escrever é o meu exercício predileto, ginástica de pescar e contorcer palavras, sentidos, impressões... É tanta opressão e dever que talvez seja o espaço da folha em branco um dos únicos que resta de liberdade plena. Sim, de poder. escrever é um tipo de poder, porque é criação. Não a partir do nada, mas a partir de tudo aquilo que já existe, cada letra, sílaba, palavra e frase; cada tecla que vou tocando e formando a minha tela: a escritura possui intensidades, sons, odores, formas, paisagens... é uma viagem na velocidade da luz, ou das ideias dissolutas, que passeando pelo vento da minha mente capturo e trago à letra. É divertido. Mas também pode ser doído. De repente posso mudar de trajeto ao lembrar de algum ocorrido que volta e meia ou volta inteira retorna em minha memória e pelas palavras vira carne viva. Como aqueles problemas que agente não consegue resolver, como quando machuca alguém ou se sente injustiçado. É tanto sofrimento que prefiro agora deixar apenas pra ilustrar a potência da prosa, do passeio grafo-guiado, e das infinitas possibilidades do papel ou da tela em branco. E porque também a vontade de conversar às vezes é tamanha que esta trama da escrita é quase que uma companhia, é mais que uma companhia. Pensando bem, a possibilidade de escrever e publicar, de ser lida e com uma leitora ou um leitor dialogar, é algo que multiplica o prazer da escrita, especialmente quando me sinto compreendida, quando há um diálogo da alma, não porque falei coisas verdadeiras ou salvadoras, mas porque no meu instante-já toquei o instante-já de outra pessoa, e isso da escrita é realmente uma coisa boa.

Precisava dizer

Eu não queria dizer, mas esse tipo de verdade, que não é bem a Verdade, precisa ser dita. Você, você e você eram pra mim um interdito, um bloqueio e uma barreira que me oprimiam na minha maneira de ser e ver a vida. Não que eu tivesse uma maneira já definida, ou que fosse já muita coisa, mas é que vosso comportamento de superego, de patriarca oniciente, atravessava a minha garganta, algemava as minhas palavras e me fazia gaguejar em pensamentos. O que era isso? O que isso significa? Certamente que eu sou neurótica, e que me sinto perseguida... Mas não tão certamente a neurose encoberta de vocês, a misoginia enfeitada e maquiada que expressavam como caridade compreensiva da inferioridade feminina. Claro, não em relação a todas as mulheres, afinal, existem muitas que se enquadram em seus padrões, modelos e critérios de avaliação. Mas apenas em relação à maioria delas, com suas desordens cognitivas e suas contradições lógicas. E não apenas mulheres, afinal, são muitos os desprovidos da inteligência. Obviamente, falha intelectual do raciocínio. Acreditar na intuição? Apenas se for a de Bergson. Poesia? Só se for a de Fernando Pessoa, Bukówski ou Baudelaire. Ensaios? Os de Montaigne, Hume ou Emerson. Filosofia? Platão, Aristóteles, Descartes, Kant, Hegel, Tarski. Sinceramente, e encurtando esta conversa, o mais importante a dizer é que enquanto vossos luminosos cérebros pensantes incham e pesam com suas linhas de raciocínios brilhantes, o universo segue seu fluxo, os pássaros cantam, o sol brilha, estrelas morrem, pessoas se amam.. a vida continua, e embora todos os vossos esforços em refreá-la, objetificá-la e tornar vossos pensamentos e serviços em mais-valia, a insignificância da vossa análise minuciosa serve apenas para criar doenças metafísicas incuráveis e corrosivas. Mas tudo isso deve continuar sendo ignorado. Não é nada relevante, Afinal, eu não queria dizer, mas esse tipo de verdade, que não é bem a Verdade, precisava ser dita...

quinta-feira, novembro 30, 2017

Re-tesado

É como se eu nunca pudesse falar realmente aquilo que penso, da forma que penso, por ser isto e aquilo desqualificado naquele âmbito, naquele lugar. É como se sempre que eu fosse escrever, precisasse vestir uma armadura, uma couraça envernizada, uma camisa de força das minhas formas e ideias... e como se não tivesse ideias, nem argumentos ou discursos.. é como se a minha escrita se dissolvesse no nada, como se nunca alcançasse um patamar de aceitação, de formatação, como se nunca chegasse a ser algo razoável ou possível. Apenas notas de rodapé. Devaneios inúteis, versos dispersos, desperdício de verbo. Nunca tão bom, nunca pronto, nunca certo. Sempre ressentido, magoado, autocentrado, buscando se afirmar. É como se minha voz não tivesse vez, não tivesse valia; é como se minha fala fosse apenas, ou quase, poesia. Como se nunca fosse, sempre no faz de conta, no conto que não se deu conta que nada conta que não seja o argumento preciso, ao modo canônico, na linguagem desadjetivada, neutra e objetiva.

Poema de terras distantes

Como sentir sem dis-trair
ou des-esperar?
palavras paridas do desejo
emitidas
com anseios
a física quântica do medo
sem o quantum do cálculo
move o concreto
matéria vazia, esvazia-da
vaza de "até quando se espera
sem e(xa)sperar?"
Múltiplas linhas férreas
paralelas e perpendiculares
com o trem-bala, maria-fumaça
(o que importa?)
ele vai passar, o amor fulminante
ardente, lancinante, vem.
Quando? Como?
Pra que lado vai e de que lado vem?
Virá adiantado ou atrasado?
Re-tarda? Vem?
Ator-doada ardo,
ainda que doa, doo
dualada e aturdida.

Sabedoriar, saber esperar
sem deixar de sentir aquilo
que dá lugar ao saborear
Sabedoriar, saber esperar
para saborear - petiscos, degustação
ensaiar o sabor do amar
ensaio do saber esperar o amor
ajustar o passo ao sabor do vento

Des-esperar sem desesperar
a esperança serena, acena
de um fogo ardente
fogo, ar, águardente
o gole que acalma
o respiro que restaura
o calor que mantém a vida
em sua chama mais primitiva:
o desejo chama potente
ao agenciamento das forças moventes

Re-esperar
Res-pirar
Re-parar
Re-amar

Indícios suspeitos
suspiropeitos
merengue adocicado
de morangos suculentos e inflamados
suspiropeitos, suspiroleitos

Pre-encher, dis-trair?
ex-vair esvaziar aqui
Se diz trair, se cala amar
Dizer o amor, se leal dar.

Dos fragmentos poéticos-sonoros com Flora Holderbaum

Sentido da poesia

 Alguém me disse que a poesia precisa ter sentido, dizer coisas conexas, senão, não é poesia. O que é ter sentido?  Que sentido é esse que s...