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Descaminhos

Quero ir por caminhos que desconheço, sem tantos planos, projetos ou promessas Pegar as estradas das estrelas As estadas nas incertezas Os estalos do indefeso Os estrondos do inconfesso Quero ir, andar e ir, caminhar Para o além do cálculo Do que se espera da vida Do algoritmo que controla quem vai e quem fica Seguir em frente sem o medo Do passo para o desconhecido Quero a liberdade da autodeterminação A verdade da imaginação Seguir as veredas da carne Jorrando vida E da vida o inominável Instante da partida

Doação do dado

Entre o passado e o futuro nada está dado
Apenas o presente, insistente, se põe como abertura do possível.
Um passo sem direção por entre a névoa do destino
Desconhecido que é o porvir e o por ir.
Tecendo o agora com os fios da indeterminação
alcançados com as mãos da vontade de criação.
Nada dado entre o além e o aquém.
Nada posto a partir das expectativas,
dos projetos corrompidos pelas ideologias dominates
E quem diria que haveria libertação, possibilidade,
capacidade de superação?
Nada dado, apenas dor, doa a quem doer
doação.

Ensaio da vez

Sonhei viver num sempre ensaio, a tocar instrumentos com os amigos e escrever frases e rascunhos sem fim. Era dia, ou era noite, não importava, mas a qualquer instante surgiam novas melodias, novas frases e poemas que captavam o agora e o transformava em bolhas de ar, em gotas frescas de orvalho e ainda em perfumadas pétalas da mais vibrante cor. Era ensaio cada ação, sem começo, nem fim, nem duração, era apenas um sempre ensaio, que nos presenteava com a abertura do horizonte e de possibilidades sempre novas, ou velhas (realmente não importava), de recomeçar, de justapor, de refazer, de acrescentar e não precisar justificar. Era ensaio nosso de cada dia, como uma sempre música que nunca acaba, mas que se renova com a mudança do vento, com a temperatura, e ainda com o temperamento. Era o ensaio da vez que se desabrochava, sem plano prévio, mas na direção da intuição latente. E os pássaros das ideias voavam, sem gaiolas, sem precisar voltar, apenas pousar onde e como quisessem. Era se…

Sobre o Sim LV

Foi pelo dedo do meu pé que o senti. Primeiro a sensação da sua boca molhada e mais fria que a minha pele. Depois, uma mordida... e já estavam suas mãos em minha perna, num movimento ascendente. Então eu me coloquei ereta, instintivamente, e senti seu dedos úmidos subirem entre minhas pernas, e me penetrar com a fome de quem acaba de vencer uma guerra. Os seus movimentos eram selvagens, firmes, profundos, porém, delicados e amorosos, incapazes de me causar dor ou sofrimento. E eu não apenas me deixei levar. Eu quis! Quis aquele momento com todas as minhas forças, e me coloquei em posição de troca, de aceitação e de paixão. Paixão pelo que a vida me deu, aqui e agora, pelas dádivas recebidas do momento presente com toda a sua intensidade. Paixão por tudo aquilo que eu pude e posso viver, por tudo o que me aconteceu inevitavelmente ou imprevisivelmente, mas que se tornou destino e eterna lembrança.  Eu disse sim.
Sim.

Super lua

Quero esta lua cheia, com toda sua intensidade profunda e obscura
caminhar pelas ruas sem medo da sombra,
atravessar os bosques, os becos, as bocadas,
sentindo a brisa noturna que refresca a minha alma
tão antiga e jovem como o tempo.

Quero ser transportada por esta super lua
para o todo sem lugar, pelo mistério do desdobramento,
para a abertura do terceiro olho
que num sobrevoo de um instante
percebe cada detalhe do caos circundante.

Quero mergulhar na densidade deste luar
que consigo enovela todos os segredos do arrependimento e do não vivido
vagar em silêncio e solitariamente
descobrindo o meu lado oculto e na espreita do próximo passo
saber-me indecifrável e inteira como esta lua cheia.



Do fim-dar

Há uma delicada e singela aspereza no correr desta tarde, e eu quero vivê-la em toda sua sofreguidão que se estende pra dentro de mim... Não quero mais, nem menos, quero apenas este transcorrer que me enleva e me acende pro inaudito da natureza. Quero apenas me dissolver na branca e carregada nuvem que sobrevoa a minha casa, e me deixar ser levada pra dentro de meus sentimentos pensados e desembrulhados pro mundo... Vou me sentindo ser no tempo e no espaço fugidio, sem querer agarrá-lo ou possuí-lo. Apenas sendo o canto de um pássaro, uma folha que cai, ou o bater das asas de uma borboleta. Não sofro por tudo que se esvai, nem tenho condescendência pela morte que abate. Calo sobre o nunca mais e esqueço a dor e a beleza de tudo que já foi um dia.

Do instante

Captar o instante. Eis o maior desejo de todo ensaísta e amante. Captar e fruir o instante, com todos os detalhes insignificantes e tão simbólicos como a própria vida. Pintar o instante com todas as misturas de tintas, todas aquelas que forem necessárias pra exprimir aquilo que é no momento que está sendo. Dedos como pincéis e cores como corcéis livres a escrever o destino fortuito e incerto. A paixão pelo instante pintado com fidelidade, instante pintando como instante, um duplo do mesmo que passa de uma coisa a outra sem diferença ontológica, apenas com diferença estética. Criação de diferença pela percepção da diferença. Pintar o instante fugidio sem medo das metades subjetivadas, sem vergonha de não saber com exatidão aquilo que escapa. Rasgar a folha em branco com o que brota do agora: dor, destino, desistência. Cravar as unhas no presente pra fazer escorrer o sangue que revela a vida, a pulsação, aquilo que ainda arde no fértil ventre da escrita.